terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Inventei palavras

Inventei palavras
 
Inventei palavras
tão frágeis,
que, embora,
pensei, fossem ágeis,
se perderam no tempo,
se diluíram,
nas saudades infindas,
de tardes tão lindas,
de noites bem-vindas,
quando a vida nos juntava,
em abraços sinceros, eu acreditava,
em beijos marcantes, eu achava,
em prazeres eternos, eu sei agora,
porque já que é pra sempre, se adora
a lembrança, a memória,
se escreve a história,
de nós dois,
de um casal
de namorados amantes,
um canal
das palavras,
dos sonhos e dos desejos:

não viverei jamais sem receber seus beijos,
só viverei porque os apanho cada dia,
no vento que sopra daí pra cá, pela via
do pensamento, da nossa eterna sintonia...

Inventei palavras...
como se inventa a vida...
acho...
e me escondi entre elas...
me achei deveras...
em priscas eras...
nos sons e significados...
descobri estados...
ora líquidos...
ora gelados..
sólidos...
gasosos...
ares...
cantares...
ciganos sentidos...
inventei gemidos...
criei sustenidos...
compus sinfonias...
encontrei noites vadias...
como a de agora, da cheia lua...
renasci com luz que incendeia..
iluminei minha alma na tua...
inventei o amor até... cadeia...
e me prendi para sempre nessa teia...

Cida Torneros
Publicação: www.paralerepensar.com.brr 15/09/2006

Beijos de baton

 
Beijos de baton

Vermelhos lábios de macho marcam teu corpo de mulher
beiços borrados de cor e sabor, em forma de talher...

São eles a fantasia dos desejos, a tatuagem dos mistérios,
porque nivelam o mundo dos sexos de dois hemisférios,
equilibrando os opostos que se atraem e se traem nas funções,
sôfregos atos de busca dos prazeres, da entregas, dos senões...

E tu, fêmea delirante, percebes a surpresa nele, a perplexidade,
a revelação de um segredo inconsciente, na verdade...
Observas a felicidade, o poder do encontro, a eternidade
do casal que vive assim, da descoberta da própria animalidade...

Pena não seres dele a companheira e cúmplice, a parceira,
lastimas o fato de estarem assim como pássaros viajantes,
e, juntos, não terem construído o ninho no momento que passou,
no instante que não aconteceu no dia certo, nos anos idos...

Mas, peregrina das paixões, amante dos pães de cada dia,
nos desjejuns com tulipas, com cores, sabores, tantos amores...
Por que não agradecer somente agora, essa chance passageira
esses dias de sol, noites de lua cheia, esses minutos vividos,
enquanto a história se borra de baton e se anuvia...??????

Ri da cena, da brincadeira, do despojamento, da besteira...
Ri, pra seres mais verdadeira, da certeza de alcançar a alma
do homem que te faz das mulheres resolvidas, a mais inteira...

Da próxima vez que os beijos de baton acontecerem, tenha calma!
Observa a importância da atitude, a doação da amizade,
reflete em ti, muito mais, bem mais ainda a doce saudade...
A saudade dessa boca que te marca, sobe e desce,
e, num ufanismo feminista, vê nele o homem que jamais te esquece...

Cida Torneros
Publicação: www.paralerepensar.com.brr 15/09/2006

sábado, 11 de dezembro de 2010

Solteirice explicita


Ambos estavam solteiros. Depois de seus casamentos longos, filhos criados, namoros intensos e alguns recomeços, falaram sobre o tema da solteirice explícita. Lugar comum para cinquentões libertos de tantas amarras anteriores. Decisões personalistas, escolhas resolvidas entre mil e uma possibilidades, a opção de sairem sozinhos aos lugares públicos, desfrutando de si mesmos, da própria companhia, tanto nas salas de cinema como nas mesas dos restaurantes.



Tinham, finalmente até, o direito de recusar parceiros que não lhes interessavam, preferindo a solidão reflexiva e pródiga de maturidade conquistada.


Estavam solteiros, mas não tinham assinado nenhum documento que os obrigasse a permanecer nesse estado de intenso livre arbítrio, entremeado da inconsciente busca de alguém que os motivasse a voltar a amar.


Se bem que sempre se reconheciam amando a vida, a si mesmos, suas famílias, tantos amigos e amigas. Esse tipo de amor lhes inundava os dias. Mas o amor de casal acasalado, amor de busca entre macho e fêmea, lhes sufocava as madrugadas.


Sabiam o quanto era difícil garimpar alguém que lhes encaixasse em desejos, hábitos e expectativas de vida. Confidenciaram-se. Aliás, o tempo, nos dois últimos anos de constantes encontros profissionais, lhes fora favorável, lhes oferecendo uma dose respeitável de confiança mútua e amizade crescente.


Seus abraços eram tão carinhosos quanto aconchegantes.


Suas confissões eram desmascaradas, e, de tão sinceras, remetiam a capítulos de novela romântica ou trágica, dependendo do humor em suas sessões semanais.


Os olhos se encontraram depois de dois meses afastados. Havia satisfação e segurança na troca desse olhar questionador que os tornava caçador e caça, faces opostas de uma mesma moeda, como signos cuja dualidade é a fonte do seu status sólido.


Como um mágico que tira um coelho branquinho da cartola, ele a surpreendeu com jeito de pedinte do amor. Ela, por sua vez, mudou o foco e o viu, pela primeira vez como um homem, apenas como um homem, não mais como um amigo profissional com quem se reunia todas as semanas.


Então, num gesto impensado e impulsivo, ele segurou as mãos dela, juntas, de uma só vez, a uma distância menor que um metro, puxando-a para aconchegar-se no seu peito.


Ela fechou os olhos. Deixou-se levar pelo sentimento pleno. Era só isso. O carinho do homem solitário, lhe oferecendo segurança emocional e vontade de ficar ali pelo resto da vida.


Mas, em seguida, meio envergonhados, despediram-se.


Marcharam em busca de alguns sonhos realizáveis. Viagens, escrita de livros, camaradagem humana, e um ponto contou a seu favor para que se tornassem um novo casal de namorados.


Ele , o psicanalista, ela, a paciente, ambos, solteiros, cinquentões, com filhos criados, sede de viver um novo amor, talvez até um novo casamento.


Quando chegou em casa, ela pensou em agradecer a ele pela sessão que acabava de ter com ele. Esclarecedora, cada palavra dita por ele, soara como um libelo para o caminho dela, que o achava sem rumo, sentindo-se perdida como uma vaca solta num imenso pasto.


Compreendeu então que estava livre para escolher que espécie de capim devia comer, onde devia se proteger do verão intenso e talvez pular alguma cerca que ainda a separava da vida lá fora.


Agradeceu a ele, via recado no celular. Ainda assim, esperou por ele por muitas noites e orou por ele, nas manhãs ensolaradas e nos dias nublados.


Ambos estavam solteiros, continuaram a cruzar seus olhares, perdoaram seus arrepios constantes, expuseram-se então, e num dia de sábado, ele a convidou para jantar.


Fundiram-se em um único olhar durante todo o encontro. Ainda permaneceram solteiros distanciados por um bom período. Suficiente foi esse tempo que se permitiram, para refletir sobre o que sentiam e o que esperavam um do outro. Resumiram numa palavra pequena, gasta, corriqueira, mas plena de significados. Amor... essa palavra pôs fim ao seu longo tempo de solteiros, e dali em diante, passaram a ter duas casas, duas camas, dois endereços, duas chances individuais de replantar seu jardim e colher flores para enfeitar seus domicílios. A partir desse dia, buscaram estar juntos, sempre que fosse possível, necessário e prazeroso. E abandonaram o estado "civil"izado, em cerimônia íntima e simbólica, concorrida por familiares e amigos.


A partir de então seriam solteiros aconchegados e próximos. Continuaram a morar em suas casas anteriores e a preservar a tal intimidade tão violada nos dias de hoje. Assim, seriam eternamente visitas na casa um do outro, e brindariam para sempre, juntos, o tal Valentine's Day, a cada fevereiro, numa promessa gratificante, enquanto pudessem ficar assim, solteiros, amigos, amantes, presentes, carinhosos e saudosos um do outro, explicitando um novo modus vivendi, entre os novos solteiros do século XXI. Se realmente viriam a contrair matrimônio, nem eles mesmos sabiam responder. Apenas tinham uma certeza, sua solteirice era compartilhada entre si, e seus sentimentos os entrelaçavam em rituais de carinho e sensualidade, com salutar distância das suas intimidades. Tinham encontrado um modo de viver que os agradava, e seu amor era tão real quanto suas almas podiam alcançar, pois se descobriram felizes e se amando verdadeiramente. Mesmo assim, preferiram continuar solteiros, inteiros, parceiros, amigos, amantes e admiradores um do outro pelo resto de suas vidas. Seriam como dois pássaros a voarem para se bicarem e beijarem todas as vezes que necessitassem um do outro.


Aparecida Torneros

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Julio Iglesias - El amor

Julio iglesias - Despues de ti

Julio Iglesias - Todo el amor que te hace falta

Julio Iglesias - Lo Mejor De Tu Vida (Orginal)

Soy Un Truhan Soy Un Senor - Julio Iglesias

Julio Iglesias & Roberto Carlos - Solamente una vez

Roberto Carlos - Abrazame Así

Roberto Carlos - Adios

AMOR PERFECTO - ROBERTO CARLOS

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Bárbara Iansã

A Bárbara Iansã







É fogo! Diria a menina desavisada, diante do seu impasse inusitado quando o mundo parece se dividir em milhões de pedaços incandescentes e são tantos os caminhos a escolher para trilhar.






A luz entontece, a alma se confunde, o peito explode, o universo se faz borbulha de vulcão interno. Ser mulher e ser guerreira se torna sinônimo nessa vida moderna, onde cada boca pintada com batom luminoso grita o coro das corajosas em fila indianamente formada para abraçar felicidade e futuro.






No vai que vai, a senhora prometida amansa as intempéries, mulher quebra tabus, avança no caminho da decisão, ama seu homem, seus filhos, enfrenta a tempestade da sobrevivência. Como formiguinha carregadeira de tarefas, ela viaja nos coletivos que a destinam ao trabalho diário, e sonha com a identificação da deusa mista, nas figuras de Bárbara e Iansã.






- Sou filha de Iansã! Repete a jovem afogueada e risonha, batendo com a mão espalmada sobre o coração na cadência de cada novo dia.






Isso acontece na Bahia, em termos regionais, mas se espalha pelo Brasil, como um inconsciente disseminado através de arquétipos femininos repetidamente cantados nas canções populares e nas festividades do 4 de dezembro.






Mulher de briga, cada filha dela, nada tem a temer quando se posta diante do desafio optando por ser representante do milagre fecundo da procriação.






O fogo dominado pelos bombeiros que invocam sua proteção é mesmo um espectro do calor que vem do útero em furor, da mãe-terra a cuspir labaredas que alimentam fé e glória. Mais que isso, até, chamas que garantem não só a expressão do sincretismo religioso, mas, sobretudo, o teor feminino que só emerge do fogo das paixões.






A menina mestiça que dança nos folguedos da comunidade intui sua condição de seguidora de alma chamuscada, suporte da condição capaz de derreter com olhares, gestos, abraços, beijos, cumprimentos, reverências, volteios, gritos de ordem, cânticos ou lamentos, ladainhas ou “pontos”, rezas ou louvores.






Há que se pedir piedade a Iansã, por cada mãe adolescente, cada mulher vítima da violência doméstica, cada mãe que perde seu filho na loucura do crime, cada esposa cuja ilusão do casamento feliz se esvai no ralo do destrato ou do abandono, cada fêmea em crise existencial, cada executiva imersa no comércio infindo do trabalho em lugar do carinho, cada artista solitária no ofício de emocionar seu público, cada professora empenhada em clarear mentes aprisionadas pela escuridão, cada médica comprometida pela saudável busca do equilíbrio físico e mental, e muitas mais.






Senhora dos relâmpagos, por sobre os mares revoltos, lá vem ela, a Bárbara Iansã, mais uma vez, na ardência do seu estigma, incendiar cada alma feminina, de menina que se faz mulher, a buscar queimar-se na imensidão à sua espera.






Aparecida Torneros

Ponto de Iansã "Maria Bethânia"

Iansã

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

4. Sabes mentir - Djavan / CD Passione Nacional

Sabes mentir

Sabemos mentir...



Nasceu entre nós uma brincadeira de faz de conta
eu fiz de conta que te amei, tu mentiste com muita classe...

Vivemos momentos tão felizes, cheguei a ficar tonta
de tanta felicidade entre nós, como se a vida nos iluminasse...

Houve instantes em que nossos olhos em doce afronta
se perderam um dentro do outro, num perfeito enlace...

Nem pudemos refletir sobre a mania de cada resposta pronta
que trazíamos na  história das nossas vidas, como um passe...

Tínhamos amores frustrados, em nossa história semi-pronta...
Modelos que ousamos repetir, embora isso não nos bastasse...

Mentimos para nós mesmos, na repetida ilusão  que monta
novo quebra-cabeças, xadrez exposto para que se jogasse...

Nem   perdemos, nem ganhamos, somente o empate aponta
o resultado de um sentimento forte, era como se eu te amasse...

Mas talvez tu também tenhas me amado,  um dia, na conta
de um envolvimento emocional incontrolado que te dominasse,

e no auge do  labirinto que  amor é capaz de enredar  cada alma,
eis que a distância nos separa agora, verdade e mentira, a calma,
o  plácido final de um caso, a lembrança de algum beijo doado,
a sensação de  que nem tudo foi perfeito, mas foi laureado,
com a esperança   dos solitários, buscando pares, amores, afetos,
agora, cá estamos, distantes e próximos, saudosos e quietos,
pois nada há mais a fazer nesta   história de mentirosos,
apenas nos resta  mentir mais uma vez...eu digo..."não mais te quero...
tu respondes, nunca te quis verdadeiramente, nem tive contigo amor sincero"...

Cida Torneros